quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Automatização Coletiva
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Sanatório, Parte 1 - O Diário
Já faz treze dias desde que me enfiaram nesse buraco escroto e o ápice de todas as minhas incertezas até este momento é que sequer ao mínimo informaram sobre minhas condições patológicas. Bipolaridade ou depressão?... se bem que isso já deixou-me de ser uma preocupação, tendo em vista que nesse boeiro imundo a última coisa que atribuem valia seria no caso a sanidade, como minha consciência ficaria grata caso meu esteriótipo de "louco comedor de merda" fosse apenas uma pequena partícula de realidade nesse asilo. No dia em que eo fora despejado neste antro já ocorriam histórias de que dois dias antes da minha vinda um dos internados teria ateado fogo em algum infeliz dentro da ala C, e o pior de tudo é que ainda por vezes consigo sentir o cheiro de carne queimada quando alomoço, a única coisa que ainda tenho ânimo para fazer diante de tanta podridão é tentar manter minha mente limpa... ao máximo, e receber alta por bom comportamento ou qualquer brecha similar, só espero não me tornar semelhante a internada do 37B, que todas as manhãs arruma suas malas e se dispede de metade do asilo, alegando ter recebido alta. se ao menos eu tivesse a mísera felicidade do acaso me presentear com alguma existência sóbria, sã, em plena consciência de sí, para um diálogo... nem que seja palavras jogadas ao vento, quisera eu, as enfermeiras serem um tanto quanto mais compreensivas e que não somente tenham como intenção me ludibriar com seus medíocres discursos que se resumem em meu trabalho é apenas ter a certeza de que os medicamentos receitados desçam goela abaixo, nem as faxineiras se arriscam mais à limpar os quartos na presença de algum internado após o último incidente no qual os retardados mentais da ala F molestaram sexualmente uma de suas companheiras com o auxílio de uma faca.
O tempo parece não existir entre essas paredes, nenhuma medida a ser tomada como margem, nenhuma distração oferecida aos meus olhos para que os passos do tempo se acelerem, acaso não fosse os banhos de sol regulares, sinceramente não sei o que seria de minha percepção temporal, se bem que já fazem dias que me recuso a sair para além daquela fria e rígida maçaneta, prefiro a serenidade de meu quarto individual, com minha cama, minha cômoda e minhas paredes, tudo com um nível de branquitude ímpar, tão confortante e ensurdessedor. E pensar que ainda tentei, na primeira semana perambular pelos corredores à conversar com os internos na esperança de encontrar algum fragmento razão escondida querendo se expor, minha ânsia fora tão avassaladora que até cheguei a participar das atividades coletivas diárias, o mais estranho foi que quanto mais me aproximava dos internos, mais sentia a insanidade penetrar em minha pele, se alojar em meus poros, passar pelas minha papilas gustativas, vez ou outra até se misturará com o odor de carne queimada. Se existe um paraíso nesta desprezível colônia de férias sem sombra de dúvidas é meu quarto, isto quando algum demônio não vem roubar minhas maçãs através dos gritos abafados de algum paciente incontrolado que foi convidado a repousar por algumas horas, ou dias no quarto acolchoado.
E pensar que meus planos, em contraste com minhas atuais circunstâncias se resumem num profundo mergulho dentro de mim, já não me iludo nem com espectativas, volta e meia me encontro numa cama e o pouco que me resta dos sonhos, não me lembro mais, quisera que meu instante seja hoje algo mais que uma lacuna.
23 de Maio
João Augusto de Oliveira
domingo, 10 de janeiro de 2010
Pensar mecânico
Na rotineira ação de tomar o bonde toda manhã, acendo um cigarro por prazer solitário. Após uma longa tragada, a nicotina se instala em meus pulmões fazendo as engrenagens de minha mente girarem. A fumaça flutua em espirais pelo ar fundindo-se com meus pensamentos absortos.
Vejo o sopro de minha vida se esvair pelos meus pulmões junto da fumaça exalada. Quanto tempo de minha existência um cigarro pode me tragar? Horas, dias, meses, não sei ao certo. Quanto desse tempo vale o breve prazer de uma tragada? Com certeza mais que o tempo perdido esperando a condução. De que vale viver, carregar no dorso tantos traumas e decepções, porém resistir a tentação de desfrutar dos mínimos prazeres e alívios terrenos como uma trago de viver que bebo em uma tragada de tabaco? A morte chega, sim, carregada pelo remorso que rói os ossos. Chega tão certa quanto o ultimo trago do cigarro.
Corro os olhos ao pulso, procurando as horas. Os ponteiros petrificados. As horas dissipam-se pelo ar junto da fumaça. Perdi minha vida nas horas de trabalho não pagas pela mais-valia. A vida se perdeu pelas vielas das horas. Perdi o bonde. O tempo não existe, nunca existiu. São apenas números, medida estipulada pela espupidez megalomaníaca humana de possuir o controle sobre do imprevisível.
Enfim chega o coletivo, entupido de corpos moribundos. Magnetizado, me acoplo ao automovel como todas as peças alí presentes, que no desgaste do atrito de suas existêntias, cinéticamente são fadadas a fazer funcionar a grande máquina que as comanda.
George Samsa.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Caminhante Noturno
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Considerações Solitárias
atravesso a ponte entre minha mente e as arquiteturas da vida
o que se pode fazer... ou o que se pode ver
tudo isso sempre faz mais sentido quando se esta apenas junto da alma
dois ou três passo, e a desculpa de uma caminhada para se fazer trabalhar a mente
triste mesmo é saber de pessoas que não conseguem se deixar levar por esse instinto
instinto brilhante, guardado num imensurável templo... ao lado de anseios, do orgulho de ser... e alguns traumas psicológicos, é claro
sempre se encontrar após as caminhadas... sempre desfrutar das colheitas da mente
Até entendo a vontade do convívio, até me treino na vontade de socializar
mas a ilusão, é quase uma alusão de se pensar em sempre estar com alguma companhia
é menos conciso estar sozinho... e é disso que a vida precisa, complexidade
é mais real estar sozinho, quando a única certeza é uma morte solitária... porque não trazer dessa medida sempre os extremos?
é um tanto cego estar sozinho, porém é perante a cegueira que se consegue enxergar com seus outros instintos
também pode se dizer que é um tanto quanto humano se encontrar sozinho, pois a necessidade de nós, sempre parte da incerteza do eu, e estar só também é estar numa festa com todos os outros 'eus'
Vladmir Fergursson