sábado, 19 de fevereiro de 2011

Entre Entranhas e Esgotos

Vagando torpe, pelas ruas
me perdi em bares e becos
em tropeços e desconcertos

Vultos errantes vagam por min
e pelas vias da cidade se esvaem
na corrente circulação da metropole

Na dor de cada pulso o sangue insiste
em correr pesado por minhas veias,
(vias perdidas de minhas entranhas)
e mover este corpo pútrido
que ja nasce fadado a morte.

Torpe, descambo pelas sargetas sujas
e como o vômito escoo num boeiro imundo.
No oco dos esgotos de minhas entranhas
entre fezes e restos que se decompõem
busco o beco escuro inabitado em min.

O vagar incessante resume,
a busca inalcançada do Ser
que nunca foi nada.

Apenas restos,
somente fezes
a madrugada.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Poste e o Concreto

(...)

Passos, dizeres e des-dizeres
Inconstante fuga que me trás seu retrato
Ruas e sublimes colorações ainda vívidos em meu consciente
e a serenidade que conservo em meus versos
e que encontro em teus olhos...

Arnaldo Benjamin Côrrea

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lirismo Desconexo

O coelho de gravata não para
O corvo com lapela se enquadra
Não se mova para a espiral dançante
Pois os pássaros podem naufragar os viajantes

Eu te quero aqui
Eu te espero por vir

O grito que sucede às asas de uma borboleta
Latitude constante somada à vertigem
Por que estamos parados e ainda assim nossos pés continuam se movendo?
essa insônia que não cessa a lucidez de meus sonhos

Gafanhotos e besouros aqui passeiam meio à flora incandescente
Não espere por colheitas do amanhã
Não espere por colheitas do amanhã


Douglas Albuquerque

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Verbo e Veneno

Pinte os lábios de Carmin, querida
que hoje a noite é tão convidativa
para seus dizeres se fazerem sangue

Beije-me, beije-me com ardor!
me enxa de saliva, catarro e pús
e todas as suas palavras podres

Sua boca escorre por meu corpo
deixa um rastro cor Coral, cobra
possessiva, me demarca território

Sua lingua desliza por meu pescoço
navalha traiçoeira que me degola
sua saliva ácida me corrói a fala

Sussurre em meus ouvidos, querida
todas as indecências que pensas,
gaste seu vocabullário mais sórdido

Gema em meu ouvido, canalha
deixe me ouvir, grite! Me insulte!
Vomite suas palavras mais imundas

Me seduza com sua dança, serpente
eu conheço a sua libido, mulher
sua sede não é de sexo, é de sangue

Então me sugue pra dentro de ti,
estraçalhe a minha carcaça podre.
Me engula, me devore, me digira!

Me faz mais uma de suas presas
mais um homem mutilado por ti
morto por suas palavras, seu veneno


Franco Saldaña.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sanatório, Parte 2 - O Diário

Renato chegou atrasado para “me visitar” hoje, detesto quando ele faz isto, ele tem plena consciência de que não há nada, além das paredes que me cercam, que são do meu interesse nesta instituição, quer dizer nada que me interesse nas atuais circunstâncias e diga-se de passagem nos últimos dias tenho sentido raiva de suas “visitas”, isto é, estou eu longe de minha família, num ambiente em que, além de minha consciência, não existem pessoas patologicamente lúcidas para trocar palavras, sinto falta até de conversas medíocres como aquelas sobre episódios de novela que ouvia ao acaso na fila do supermercado e não tenho nada para fazer o dia todo, há não ser sentar numa cadeira e esperar minha existência passar diante de meus olhos... Como sinto falta da rotina do trabalho! E o que mais agrava o que sinto pelo Renato é o fato de que ele está exercendo todas as funções que eram antes atribuídas a minha pessoa neste hospital, e o pior de tudo é que o meu afastamento, assim como meu ingresso nessas “férias de outono” foram discutidas abertamente com ele, porém eu tenho consciência de que precisava disto, pois o excesso de trabalho somado com meu constante acumulo de envolvimento com meus pacientes estavam esgotando minha saúde mental, o que me conforta é que ainda estou racional ao ponto de não deixar esses sentimentos de angústia, por estar nesta condição, abalar minha amizade com o Renato.

Não que isto seja fácil, pois nos últimos dias meu humor andou muito à flor da pele, quiçá o tempo em que estou exilado em meu quarto seja o grande ocasionador destas inconstâncias emocionais, e isso se agrava quando ele em algum lapso de camaradagem faz um ou outro comentário engraçado na tentativa de levantar minha força de vontade de encarar a situação, hoje, por exemplo, estávamos conversando após a consulta e ele me disse em tom de deboche “Que isto João, não se preocupe tanto com sua alta, você sabe tão bem quanto eu que isto era a única solução, encare isto como suas ‘férias de outono’”, mesmo com toda a minha racionalidade e temperança custou muito apagar a imagem que minha mente projetara de minha possível ação de pular sob seu pescoço com as mãos esganando-o bem com uma delas e fazê-lo comer todas suas anotações com a outra, juntamente com seus dentes é claro, esse pensamento não durou mais que três segundos, o suficiente para encaixar outro clichê com tom de deboche, na ânsia de acabar com a situação. O que me conforta é que ele providenciará uma nova limpeza ao meu quarto, já até perdi a conta de quantas vezes reclamei sobre o maldito cheiro de carne queimada que insiste em perfumar o ambiente, ele considera que foi um choque o acontecimento de dias antes de meu ingresso e que isto fez com que minha mente reproduzisse este odor com frequência. E por falar em limpeza, é engraçado como não me lembro de ter visto algum dos membros da limpeza nas últimas semanas em meu quarto e/ou próximo à janela de meu quarto, no entanto acho que essa conclusão é fruto de alguma possível paranoia na qual estou sempre me induzindo.

Ultimamente também ando tendo sonhos tumultuados por demasia, porém esta não é a hora pra que eu começar a relatar os mesmos em minha “consciência escrita”, nem consigo defini-los, apenas ter vagas recordações de algo como uma fogueira, o mais intrigante é que vez ou outra esses sonhos conseguem me tirar o sono, espero conseguir recordar algo mais concreto que um esboço, isto seria uma maneira e
tanto de “diminuir minhas férias”.




09 de Junho


João Augusto de Oliveira

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Das noites com Lilith

É de suscitar os acordes dissonantes
que me prendo à fitar teus olhos, junto à fumaça
acaso fora apenas uma ilusão súbita
das que surgem entre ritmo e notas

É de viver neste mundo que levo aos meus pulmões sorvos de coragem
Que antecedem os passos e se confundem às gotas de vinho
gotas frias, que umedecem os lábios e vez ou outra lépidos dedos

Segredos, saliva e minhas mãos trêmulas
uma súbita sensação de estar sendo dominado
pernas roçando de leve entre os lençóis
e breves recordações, lidas em cinza, nas matizes da manhã seguinte

Arnaldo Benjamin Corrêa


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Solitude

Lanças de ócio trespassam as paredes,
o vento contra a janela compõe uma sublime melodia
desliza, garrafa abaixo, a ultima gota de vinho
Uma cadeira para a solidão...

Tenho a companhia de móveis, tinteiro e uma pena
lanço-me de encontro ao espólio criativo
vez ou outra, breves versos me visitam
Duas cadeiras para a amizade...

Recuso-me a estupidez das multidões
insetos zunindo angustias do cotidiano
ações levemente programadas ocultam o marasmo
Três cadeiras para a sociedade...

Vladmir Fergursson

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Descompasso

Maqueie-se, minha querida
pinte seus lábios frios de carmin
mascare seu rosto pálido de rouge
e entupa os poros de sua pele
com pó das cinza que restaram.

Vista seu melhor vestido longo
seu traje de gala, roto e gasto
o vestido negro de todo velório.
Use suas melhores jóias, falsas.

Venha me levar, deste louco baile
de pernas tortas em descompasso
em saltos altos, a desvarios e desiluões.
Te conduzo a esta ultima contra-dança
Valsa de violinos vorazes, desfinados

De três em três compassos
a existência segue seu fardo.
infância, juventude, velhice
se esvai a vida em cada passo.


Franco Saldaña.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Fim

Era inevitável, segurava o papel com a sentença do já esperado momento.

Não sabia onde olhar, o que pensar...seu rosto sentia o suor frio de sua mão aflita.

Lagrimas não brotavam, elas se afogaram na amargura estomacal que pulsava com um frio estonteante. Procurava olhares alheios...ela tinha os olhos vermelhos e rosto encharcado, ele atônito e duro como o mármore, o outro fugia de seu olhar como quem foge desesperadamente da gigantesca criatura negra de proporções aniquiladoras.

Sua mão tremia junto com seus pensamentos, eles percorriam o passado, e cada momento bom foi findado numa felicidade penosa e passageira.

Compreendeu que seus instantes do passado eram e foram sonhos...quis correr, gritar, abraçar a todos...tudo se resumia em uma dentada desesperada em seus lábios...como se mordesse sua existência com todas as forças que sua vontade reunia.

Olhou para cima, e abaixou novamente a cabeça, uma lagrima tingiu de transparente o papel que confirmava com ciência a finitude que fora sempre ignorada pelo inebriante sabor dos sentidos, dos caminhos percorridos.

Era o fim...e era para sempre.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cima da linha

Vamos transformar os sonhos em fatos

Esquecer que mais cedo ou tarde ainda sonharemos

Não posso me encher de insipidez

Mas me conceber com possibilidades

Acolher como quem colhe

E me deixar levar como quem flui

Levando cerejas aos pares

Navegando os mares

Levando o que fui

As conseqüências do que serei