Pois os pássaros podem naufragar os viajantes
Eu te espero por vir
"Por exemplo, a linguagem poética surge das ruínas da prosa. Se é verdade que a palavra é uma traição e que a comunicação é impossível, então cada vocábulo, por si só, retoma sua individualidade, torna-se instrumento da nossa derrota e receptador do incomunicável. Não que exista outra coisa a comunicar; é que, tendo malogrado a comunicação da prosa, é o próprio sentido da palavra que torna puro incomunicável." - Jean-Paul Sartre
Renato chegou atrasado para “me visitar” hoje, detesto quando ele faz isto, ele tem plena consciência de que não há nada, além das paredes que me cercam, que são do meu interesse nesta instituição, quer dizer nada que me interesse nas atuais circunstâncias e diga-se de passagem nos últimos dias tenho sentido raiva de suas “visitas”, isto é, estou eu longe de minha família, num ambiente em que, além de minha consciência, não existem pessoas patologicamente lúcidas para trocar palavras, sinto falta até de conversas medíocres como aquelas sobre episódios de novela que ouvia ao acaso na fila do supermercado e não tenho nada para fazer o dia todo, há não ser sentar numa cadeira e esperar minha existência passar diante de meus olhos... Como sinto falta da rotina do trabalho! E o que mais agrava o que sinto pelo Renato é o fato de que ele está exercendo todas as funções que eram antes atribuídas a minha pessoa neste hospital, e o pior de tudo é que o meu afastamento, assim como meu ingresso nessas “férias de outono” foram discutidas abertamente com ele, porém eu tenho consciência de que precisava disto, pois o excesso de trabalho somado com meu constante acumulo de envolvimento com meus pacientes estavam esgotando minha saúde mental, o que me conforta é que ainda estou racional ao ponto de não deixar esses sentimentos de angústia, por estar nesta condição, abalar minha amizade com o Renato.
Não que isto seja fácil, pois nos últimos dias meu humor andou muito à flor da pele, quiçá o tempo em que estou exilado em meu quarto seja o grande ocasionador destas inconstâncias emocionais, e isso se agrava quando ele em algum lapso de camaradagem faz um ou outro comentário engraçado na tentativa de levantar minha força de vontade de encarar a situação, hoje, por exemplo, estávamos conversando após a consulta e ele me disse em tom de deboche “Que isto João, não se preocupe tanto com sua alta, você sabe tão bem quanto eu que isto era a única solução, encare isto como suas ‘férias de outono’”, mesmo com toda a minha racionalidade e temperança custou muito apagar a imagem que minha mente projetara de minha possível ação de pular sob seu pescoço com as mãos esganando-o bem com uma delas e fazê-lo comer todas suas anotações com a outra, juntamente com seus dentes é claro, esse pensamento não durou mais que três segundos, o suficiente para encaixar outro clichê com tom de deboche, na ânsia de acabar com a situação. O que me conforta é que ele providenciará uma nova limpeza ao meu quarto, já até perdi a conta de quantas vezes reclamei sobre o maldito cheiro de carne queimada que insiste em perfumar o ambiente, ele considera que foi um choque o acontecimento de dias antes de meu ingresso e que isto fez com que minha mente reproduzisse este odor com frequência. E por falar em limpeza, é engraçado como não me lembro de ter visto algum dos membros da limpeza nas últimas semanas em meu quarto e/ou próximo à janela de meu quarto, no entanto acho que essa conclusão é fruto de alguma possível paranoia na qual estou sempre me induzindo.
Era inevitável, segurava o papel com a sentença do já esperado momento.
Não sabia onde olhar, o que pensar...seu rosto sentia o suor frio de sua mão aflita.
Lagrimas não brotavam, elas se afogaram na amargura estomacal que pulsava com um frio estonteante. Procurava olhares alheios...ela tinha os olhos vermelhos e rosto encharcado, ele atônito e duro como o mármore, o outro fugia de seu olhar como quem foge desesperadamente da gigantesca criatura negra de proporções aniquiladoras.
Sua mão tremia junto com seus pensamentos, eles percorriam o passado, e cada momento bom foi findado numa felicidade penosa e passageira.
Compreendeu que seus instantes do passado eram e foram sonhos...quis correr, gritar, abraçar a todos...tudo se resumia em uma dentada desesperada em seus lábios...como se mordesse sua existência com todas as forças que sua vontade reunia.
Olhou para cima, e abaixou novamente a cabeça, uma lagrima tingiu de transparente o papel que confirmava com ciência a finitude que fora sempre ignorada pelo inebriante sabor dos sentidos, dos caminhos percorridos.
Era o fim...e era para sempre.
Vamos transformar os sonhos em fatos
Esquecer que mais cedo ou tarde ainda sonharemos
Não posso me encher de insipidez
Mas me conceber com possibilidades
Acolher como quem colhe
E me deixar levar como quem flui
Levando cerejas aos pares
Navegando os mares
Levando o que fui
As conseqüências do que serei
O horário de almoço mal chegara e Miguel já deveria ter olhado para o relógio de seu escritório inúmeras vezes, trabalhar em uma cidade vizinha era muito cansativo, acordava religiosamente todos os dias antes das seis horas, só assim conseguia passar seu café e ler as principais notícias do jornal enquanto travava épicas batalhas entre sua mente e o ponteiro dos segundos de seu relógio analógico. Todavia o salário era bem melhor que qualquer outro emprego que poderia encontrar em sua cidadezinha de cinco mil habitantes, só não mudara ainda para a cidade de seu trabalho porque tinha algumas responsabilidades emocionais com sua mãe que era viúva a menos de três anos, a coitada da velha mal conseguia digerir a idéia de morar em outra cidade que não fosse a que tinha passado os melhores momentos com seu amado, sentimento que misturava amor, angústia e desespero até certo ponto, sua mãe acordava todos os dias antes mesmo de ele acordar e passava horas e horas a rezar seus terços em homenagem ao defunto, após a dedicação espiritual alheia caminhava, as manhãzinhas relembrando os principais locais de seu relacionamento que se foi, como numa necrolatria sem fim.
Não era um dia muito movimentado em seu trabalho, e além do mais ele já tinha adiantado todo o trabalho da semana na segunda e terça, porém também não podia descansar, pois seu patrão aparecia em espaços de vinte e trinta minutos na porta de seu escritório, como um cão de guarda farejando e fiscalizando algum mau investimento salarial que poderia ser cortado e substituído por algum outro, e o melhor de tudo com no mínimo trinta por cento a menos de salário nos três primeiros meses. Quinze minutos para o fim de seu expediente, já conseguia sonhar acordado com sua cama que estava a dois quarteirões de seu trabalho mais algumas horas pacientemente sentado até o ônibus chegar em sua cidade, quando num surto de tarefas do cotidiano se lembrara que hoje era dia da missa de celebração póstumas pela morte de seu pai, não entendia porque sua mãe marcara essas missas a cada quinze dias, já até pensaram em pagar um psiquiatra para a velha, essa preocupação pós morte já estava ficando doentia, porém o catecismo havia lhe educado bem e tinha consciência de sua postura espiritual, além de guardar domingos e feriados Miguel participara de quase todas as iniciativas religiosas de sua mãe, afinal de contas “a caridade bem ordenada começa por nós mesmos”.
“Graças a Deus, estou há caminho de casa”, pensara Miguel enquanto entusiasmado escolhia algum dos poucos assentos que restara do lado da janela, era só o ônibus sair da cidade que já começava a lutar contra suas pálpebras para não cair no sono, esse cochilo poderia atrapalhar seu relógio biológico e fazer-lo se atrasar para passar o café do dia seguinte, mas hoje foi um dia diferente, Miguel mal esperava pela missa, não por sua espiritualidade aflorada, mas pelo fato de Ana – uma moça que foi sua namorada até o final do ensino médio – sempre ir à missa as quintas-feiras, se ao mínimo ela soubesse quantas vezes Miguel reconstruía o diálogo que possivelmente iria iniciar ao encontrá-la. Foi em uma das curvas que, enquanto Miguel pensara se era melhor pronunciar Ana ou querida, o motorista se deparou com um carro que estava vindo contra o seu sentido, na mesma pista, Miguel não entenderia quase nada, apenas sentiu um grande frio na barriga, seguido de um grande impacto – seu corpo estilhaçando o vidro da frente do ônibus, resultado da freada brusca – e uma luz serene e límpida lhe enchia o coração de paz, era o seu fim e Deus enviaria seus anjos para lhe conduzir em direção ao paraíso, ou apenas o farol do ônibus seguido das rodas desgovernadas que, espalharam seus miolos por alguns metros do asfalto.
Samuel Bradinsky
Havia de imediato uma vontade subida de corrigir e comprimir todos os erros do passado em uma pequena caixa e dizer para si mesmo :”Finalmente findei minhas dividas para com minha consciência!”
Listou e fez de sua consciência ferida, o mapa para chegar a uma redenção cega e plena de cansaço, e como troco, gerar dividendos para com o tempo.
Já o tempo, fora, restava as passagens caóticas em mente e a vontade de remediar... a tarefa é digna de honrarias...mas com entranhas permeadas de vergonha.
Como chorar? E para que chorar? O consolo dele não passava de apoio para si mesmo e uma maneira de sorrir sem fios de culpa...
Ao olhar nos olhos, caia em lamentações, que por mais românticas que pareciam, careciam dessa dor...mesmo sem forças mantinha-se firme,era necessária tal agonia?
Para que? Onde chegara com isso? E se chegar? Chegara pelo menos a metade de seu ser? Estará disposto a deixar tudo para trás?
Se sim...ai esta sua sina...sangrar em seus textos até sanar as mazelas de sua maturidade vagabunda e senil...